Autores: Carlos D’Ancona, Walter da Silva Jr., André Brandalise
Disciplina de Urologia da Unicamp, Departamento de Cirurgia do Centro Médico de Campinas.
Paciente do sexo feminino de 49 anos, com quadro de infecção do trato urinário inferior há 1 anos. Associado a esse quadro queixava-se de dor na região inguinal direita com limitação a prática de exercícios. Antecedente de hérnia inguinal D encarcerada operada há 2 anos, teve recidiva e realizou nova cirurgia por videolaparoscopia com colocação de tela. Ao exame físico apresentava dor à palpação da região inguinal D com irradiação para membro inferior direito e edema. Trazia ultrassonografia abdominal normal.
Diante do quadro foi indicado cistoscopia (vídeo) onde observou-se lesão extravesical na parede lateral D da bexiga e comprimindo a região inguinal verificou-se saída de material purulento.
Foi solicitado tomografia computadorizada que demonstrou coleção (Fig. 1).
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A. |
B. |
Figura 1 – A. abscesso perivesical (seta), as imagens metálicas são os grampos de fixação da tela. B. Observa-se compressão extrínseca da bexiga.
Com diagnóstico de abscesso, foi realizado punção para coleta de material e a cultura demonstrou Staphicocos aureus (Fig. 2) Iniciou-se antibioticoterapia conforme antibiograma com melhora parcial dos sintomas. Em virtude dos sintomas foi optado em realizar exploração cirúrgica onde foi observado tela dentro de capsula fibrosa que foi facilmente removida (Fig. 3).
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Figura 2 – Punção do abscesso para coleta de material (seta indicando a agulha). |
Figura 3 – Tela foi facilmente removida, vizibiliza-se os grampos de fixação da tela (seta). |
O pós operatório evolui sem intercorrências e após um mês a paciente apresentou melhora completa da dor, do edema do membro inferior e ficou sem episódios de infecção urinária.
Comentário
Apesar de sua elevada biocompatibilidade para emprego na reparação de hérnias inguinais e abdominais, as telas de polipropileno monofilamentar podem ser podem ser sede de processos infecciosos. Entre as variáveis envolvidas no surgimento de um processo infeccioso associado com implante de próteses desse tipo devem ser consideradas: (a) características da físico-quimicas tela (maior peso, menor diâmetro dos poros, menor elasticidade e maleabilidade predispõem a maior processo inflamatório local, edema e dificuldades no processo de integração tecidual); (b) aspectos da técnica cirúrgica (realização de cirurgias combinadas, em especial cirurgias orificiais, aumento da duração do procedimento em virtude de intercorrências intraoperatórias ou da habilidade do cirurgião); (c) condição imunológica do paciente, entre outros. Nesse sentido, já foi descrita a formação de biofilmes bacterianos em torno de próteses de polipropileno, mediante a secreção local de polissacarídeos bacterianos, que determinam a persistência local de colônias bacterianas em torno das próteses, resistentes aos mecanismos imunológicos do hospedeiro, e que podem determinar o surgimento de abcessos tardiamente após o implante.
Apesar da possibilidade de tratamento com antibioticoterapia exclusiva caso a infecção seja detectada numa fase precoce ainda sem coleção volumosa, em parcela significativa dos pacientes será necessária exploração cirúrgica, com remoção parcial ou completa da prótese (como foi realizado no caso apresentado).
Uma vez que as alternativas ideais ao emprego de próteses sintéticas, representadas pela terapia gênica e engenharia tecidual, ainda são incipientes, no momento esforços no campo da pesquisa básica se voltam ao desenvolvimento de próteses de baixo peso, hibridas (com componente sintético absorvível) ou recobertas com substâncias que modulem a resposta inflamatória, diminuam a exsudação e edema locais, e que ampliem a neovascularização local, visando minimizar risco de complicações graves como a apresentada.
Cássio Riccetto